Freguesia de Zambujal - Condeixa-a-Nova
  
                               
Zambujal: As invasões francesas na nossa freguesia segundo algumas fontes escritas e a tradição.
 
Depois de não ter conseguido ultrapassar as Linhas de Torres, Massena e as suas tropas recuam até à região de Coimbra com a intenção de passarem o rio Mondego, indo ao encontro das forças de Soult estacionadas em Badajoz, para, desse modo, utilizando o rio Tejo e as planuras alentejanas procurarem, de novo, a conquista de Lisboa. Como Coimbra se encontrava devidamente protegida pelos militares luso- ingleses, Massena decide tornear o obstáculo encontrado através da circulação pela ponte da Mucela, inflectindo para Miranda de Corvo a partir de Condeixa-a-Nova. Antes de se deslocar nesta direcção, Massena aquartelou, no dia 13 de Março de 1811, na nossa freguesia, na aldeia da Fonte Coberta, debaixo de uns frondosos carvalhos, hoje inexistentes, preparando, ao ar livre, o jantar, tendo por companheiros alguns membros do seu Estado-Maior, a amante e cinquenta e cinco soldados, na presunção que as divisões sob o comando do Marechal Ney lhe davam cobertura suficiente no caso de um ataque inimigo, bem como os oitenta soldados, a cavalo, de Loison (o famigerado Maneta), dispostos entre a Fonte Coberta e a Póvoa de Pegas, e o pequeno vale fértil que se estende até à povoação do Poço das Casas e é atravessado pelo medieval e central caminho português para Santiago (1).
O descanso dos invasores franceses foi inopinadamente posto em causa quando se aproximam perigosamente de Massena cinquenta militares das tropas britânicas, e os espaços circunvizinhos foram ocupados por tropas da mesma proveniência. Na circunstância valeu a Massena, General Eblé, Comandante Pelet, a amante do «Filho Querido da Vitória» e granadeiros da guarda, o nevoeiro espesso anunciador do aproximar da noite. Aproveitando essa benesse natural, às vinte e duas horas do mesmo dia, o quartel-general francês abandonou a região, evitando a captura, após um irmão do General Barão de Marbot, Adolfo, de seu nome, profundo conhecedor da língua inglesa, ter ido ao encontro da força opositora escondido pelas condições climatéricas, e, em nome de Wellington, sugerir em voz audível a sua deslocação para outro local. Esta versão é posta em causa pelo General Koch, que, nas suas Memórias de Massena, argumenta ser «falso Massena ter corrido o risco de ser apanhado, com então se disse», ou é um episódio ridicularizado por um capitão do exército francês, Nicolas Marcel, quando nos informa que Massena e a sua amante «tiveram de montar a cavalo e fugir meios despidos, enquanto a cavalaria repelia os atacantes» (2).
Segundo reza a tradição popular da nossa freguesia, criada em 1528, a população da aldeia da Serra de Janeanes, localizada numa pequena cadeia montanhosa mais a poente, aproximou-se do pico da Lomba, do monte sobranceiro à Fonte Coberta, e fazendo grande algazarra ajudou a afugentar os franceses.
Na Fonte Coberta, a população, utilizando o caminho do Valzinho dirigiu-se para a vertente nascente do monte anteriormente referido, escondendo-se onde foi possível, e, em particular, na reentrância geológica conhecida por «buraco da raposa». Entre os populares destacou-se a Dona Carolina, A Velha, que nasceu nos finais do século XVIII e faleceu no início do século XX com 114 anos de idade. Transportou consigo os galináceos que pode mas como o galo cacarejava, de modo a evitar a sua audição e reconhecimento do terreno pelos invasores, cortou-lhe a cabeça com uma pedra.
No monte das Pegas, situado junto da aldeia da Póvoa de Pegas, a norte, o povo local e das terras vizinhas refugiou-se no seu topo com o gado caprino e ovino produtor do afamado queijo do Rabaçal, tendo colocado nos cornos dos animais tochas acesas que deram aos franceses uma imagem dantesca e poderosa daqueles que os odiavam, contribuindo para a sua fuga.
Este estratagema, utilização de tochas acesas nos cornos dos animais ocorre na ocupação romana, invasões muçulmanas e Guerra da Restauração do actual território de Portugal. Na Serra do Caramulo, monte Lafão, existe a este propósito a lenda do castelo do rei Cid Alahum, e já Aníbal, chefe cartaginês, na II.ª Guerra Púnica, século III a. C., ao ver-se, na Península Itálica, encurralado por Quinto Fábio Cunctator, colocou archotes nos galhos de dois mil bois para distrair as tropas romanas e conseguir escapar ao cerco.
Não pondo em causa a veracidade do comportamento das pessoas (aglomerações, algazarra, tochas acesas nos cornos dos animais, etc.), o que, efectivamente, levou os franceses a fugir foi o eminente aprisionamento de Massena, que teria dado ao exército anglo - luso um estrondoso incentivo psicológico e simbólico, e a presença das tropas britânicas no vale da Fonte Coberta - Poço das Casas.
Este trabalho constitui uma parte da conferência que o Presidente da Junta de Freguesia proferiu no dia 13 de Março de 2011, enquanto pessoa ligado à investigação histórica e membro da Comissão Concelhia das Comemorações do 2.º Centenário da Guerra Peninsular, na cerimónia comemorativa da passagem dos franceses por Terras de Condeixa, no salão nobre da Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova.
 
(1) Perto deste local, o executivo da Junta de Freguesia de Zambujal ergueu em 2010 um painel de azulejo comemorativo da passagem dos franceses, pintado pela artista plástica Maria João Duarte Lopes, de Condeixa-a-Nova. Este painel assinala essa presença nas línguas portuguesa, inglesa e francesa. Situa-se na Rua dos Alpendres.
O General Louis-Henri Loison era conhecido popularmente por Maneta, por não possuir o braço esquerdo perdido num acidente de caça, ou, segundo outra versão, terá perdido o braço por ter sido ferido por soldados portugueses na campanha do Rossilhão, nos Pirinéus Orientais, quando, comandados pelo oficial do exército português, o escocês Tenente-General John Forbes Skellater integravam as tropas espanholas que se opunham à Revolução Francesa. Loison dirigia uma das divisões de Infantaria do VI.º Corpo chefiado pelo Marechal Ney. A forma desapiedada como tratava as pessoas que considerava inimigas, no caso, os portugueses, levou a população a criar expressões: «Porta-te mal que vais para o Maneta», ou «Ir para o Maneta», e entoava uma quadra relativa a Loison e outros oficiais.«Que generais é que devem/ Morrer ao som da trombeta?/ Os três meninos da ordem:/ Jinot, Labarde e Maneta».
(2) Rui Cardoso, As Invasões Francesas, 200 Anos. Mitos, Histórias e    Protagonismos, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 2010, p.172.
  
Bibliografia recomendada:
Abreu, Fernando Manuel Carreira de (Coord.), Literatura oral da nossa região. Aguieira - Dão e Caramulo. Lendas, Vol. I, ADICES, Associação de Desenvolvimento de Iniciativas Culturais, Sociais e Económicas, Santa Comba Dão, 1996.
Abreu, Fernando Manuel Carreira, Roteiro Histórico, Cultural e Turístico da Freguesia do Zambujal (a aguardar publicação).
Cardoso, Rui, Invasões Francesas. 200 Anos. Mitos, Histórias e Protagonistas, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 2010.
Juníor, António de Campos, A Filha do Polaco, 3.ª edição, Vol. III, João Romano Torres e C.ª Editores, Lisboa, 1926.
Lemos, Álvaro Viana de, Há 100 anos 1811-1911 (15 de Março). Combate da Foz de Arouce, in Arunce, n.º 13/15, 1998-2000, Câmara Municipal da Lousã.
Marbot, General Barão de, Memórias sobre a 3.ª invasão francesa, Caleidoscópio, Edição e Artes Gráficas, SA, Casal de Comba, 2006.
Koch, General, Memórias de Massena, Campanha de 1810 e 1811 em Portugal, Livros Horizonte, Lisboa, 2007.
Ventura, António, Campanha do Rossilhão - Uma Guerra Inútil, in Visão História, N.º13, Medipress, 20


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