Freguesia de Zambujal - Condeixa-a-Nova
  
                               
Lenda dos Ferreiros 
Viviam no cimo de cada um dos montes — o Melo e o Gerumelo — dois irmãos, ferreiros de ofício, que tinham o mesmo nome dos montes em que se haviam instalado, não fora o caso de serem antes os montes a tomarem o nome dos dois alentados gigantes. Cada um em sua forja, trabalhava o ferro com os seus instrumentos. Porém, não possuíam mais do que um martelo comum, de que se serviam alternadamente. Quando o Gerumelo precisava do martelo, chegava à porta da forja e gritava ao Melo, para este lho atirar, e vice-versa. Isto repetia-se de todas as vezes que trabalhavam. Só a força de gigantes podia arremessar o martelo, a tão grande distância.
Ora um dia houve em que o Gerumelo se zangou com o companheiro e, quando o irmão lhe pediu o martelo arremessou-lho com tamanha violência e mau humor que ele se desencabou no ar. A maça de ferro foi cair no sopé do monte Melo e logo ali rebentou uma fonte de água férrea — a Fartosa (antes, a Ferretosa). Quanto ao cabo, que era de madeira de zambujo, precipitou-se mais longe, enraizou e deu origem a um bosque de zambujeiros, onde posteriormente se veio a formar a aldeia que tem, hoje, o nome de Zambujal.
“O cabo partiu
Quando ia no ar
Muita gente viu
Onde foi parar
Era de zambujo
Pegou e cresceu
E assim no outeiro 
Zambujal nasceu ".

 
Gaiteiros do/no Zambujal
A origem da gaita de foles perde-se no tempo. Nas ilhas Britânicas a tese perfilhada, monogética, aponta os celtas que aí se fixaram. Contudo, podemos filiar o seu aparecimento no ciclo pastoril (teoria poligenética), pois ela surge como instrumento musical utilizado pelos povos que guardavam gado. Na Idade Média constata-se a sua presença desde o norte ao sul do continente europeu, na Arábia, Pérsia, Índia, Birmânia, China e norte de África.
     A mais antiga prova documental na região noroeste peninsular, está representada num capitel do século XI, proveniente de Melhide, província da Corunha-Galiza. Em Portugal, Gil Vicente refere na sua obra teatral que a gaita de foles é de frequente utilização. Pêro Vaz de Caminha na carta endereçada ao rei D. Manuel I, onde dá a conhecer as novidades sobre o encontro das Terras de Vera Cruz - Brasil, por uma armada chefiada por Pedro Álvares Cabral, diz que observou os índios tupiniquins, na margem direita do rio Mutari, a dançarem uns frentes aos outros, e Diogo Dias, ex-almoxarife de Santarém, ao reparar no bailado chamou um marinheiro tocador de gaita de foles para animar o convívio tendo sido do agrado dos presentes. (1)
      O instrumento musical aqui em análise assenta em conceitos musicais tidos como primitivos, com um som caraterístico resultante, no caso português, de um sistema de insuflação bocal, um ponteiro de oito furos, um roncão dirigido para trás e assente sobre o ombro esquerdo, de um saco ou fole de pele de cabrito, cabra ou carneiro «curada», ou seja, demolhada durante oito dias em leite e farinha. Hoje, pode encontrar-se feita de borracha ou de pano. Se, na Grã Bretanha, a gaita de foles é um instrumento palaciano ou de guerra, nos demais países europeus é de uso popular e lúdico. Toca-se de pé e quando se anda. O som deve ser ouvido ao ar livre ou em recintos fechados de grandes dimensões.
     Na aldeia do Zambujal, sede da nossa freguesia, existe há vários anos, provavelmente desde a década de quarenta do século XX, um grupo de gaiteiros, também conhecidos por «Zés Pereiras». O primeiro grupo era constituído por Diamantino Figueira, Diamantino Saldanha e Abilino de Almeida Saldanha. A transição para o atual deriva da progressiva integração de Manuel Marques Figueira (gaita de foles) e da manutenção até ao seu falecimento, em 1994, de Abilino Mendes Saldanha. Nesse ano acabaram por ingressar dois novos elementos: Abilino Figueira de Almeida (bombo) e Abilino Mendes Carvalho. Neste momento, no ano de 2013, o grupo é integrado por Manuel Marques Figueira, Carlos Duarte e Abilino Mendes Carvalho.
     As músicas que o grupo «Os Unidos», assim se chama, divulga, não são originais. Vão ao encontro do gosto popular estandardizado pelos meios de comunicação social, daí que se possa ouvir desde «ó Rosa arredonda a saia» até aos mais recentes êxitos da música apodada de pimba.
     Há menção à existência de gaiteiros na freguesia em registo de óbitos de 1612, 1683 e 1684, quando se diz: «Aleixo, filho que foi do gaiteiro deste lugar»; «Maria Fernandes mulher de Manuel Simões, o gaiteiro», e «Susana Leonarda mulher de Manuel Simões, o gaiteiro de alcunha». (2)
     Pese embora o facto de serem extensivas a todos os gaiteiros, não deixamos de reproduzir na íntegra um grupo de quadras populares portuguesas e galega cujo conteúdo é irónico e brejeiro:« Gaiteirinho da Agudinha/Já não toca quando quer:/Roubaram-le a gaitinha, /Empranharam-le a mulher»(3); «O gaiteiro de Latedo/Já não toca quando quer/Partiram-lhe a gaita/Roubaram-lhe a mulher», e «A muller de gaiteiriño/muller de moita fartura/ela toca duas gaitas/outras não tocan ningunha».(4)
(1) Almoxarife é um termo de origem árabe que designa um funcionário superior do fisco. Faziam parte das suas atribuições a cobrança das sisas, os rendimentos dos vinhos, panos e carnes, os dízimos do pescado, etc.
(2) A informação aqui dada à estampa foi prestada pelo Professor Doutor João Adriano Ribeiro, docente da Universidade da Região Autónoma da Madeira.
(3) Esta quadra popular relativa aos gaiteiros está incluída na canção tradicional transmontana Cantiga da Volta da Segada, in CD Canto Maior, Maio Moço, Tradisom - Produções Culturais, Lda., Vila Verde, 2002.
(4) Esta quadra popular galega foi nos transmitida pelos elementos do grupo de gaiteiros do Instituto Galego das Artes Escénicas e Musicais, do Ballet oficial da Galiza, que atuaram no Zambujal no dia 16 de Junho de 2003 no âmbito do 1.º Festival Internacional de Gaita de Foles da Região Centro.
Bibliografia recomendada
Abreu, Fernando Manuel Carreira de, A gaita de foles e a aldeia do Zambujal, in Boletim de Informação, Inverno 97/98, Liga dos Amigo de Conímbriga, Conímbriga.
Albuquerque, Ruy de, Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Edição Século XXI, Volume 2, Editorial Verbo, Lisboa-São Paulo, 1997.
Associação Portuguesa Para O Estudo Da Gaita De Foles, Joaquim Roque - O Último Gaiteiro Tradicional De Torres Vedras, Tradisom - Produções Culturais, Lda., Vila Verde, 2008.
Garcia, José Manuel, O Mundo dos Descobrimentos Portugueses - A Viagem de Pedro Álvares Cabral, volume 6, QN - Edições e Conteúdos, Vila do Conde, 2012.
Oliveira, Ernesto Veiga de, Instrumentos Musicais Portugueses, 3.ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian/ Museu Nacional de Etnologia, Lisboa, 2000.
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